Monday, October 30, 2006

Talk to the devil - Parte I

Era a 9ª vez na semana que se embreagava, mas esta noite era especial. Neste dia fazia 1 mês que sua amada esposa havia falecido embora sentisse a mesma dor do dia de sua morte, ou pior. Cada dia que findava levava consigo o pouco que restara de sua sanidade.

Estava andando em círculos, passara pelo mesmo mercadinho a terceira vez e decidiu que era hora de visitá-la mais uma vez, reviver o passado e reabrir o corte que tão cedo não cicatrizaria.

“Mauro Dantas, Romualdo Sirqueira, Diana Frazão, Davi Limeira” ia repassando mentamente sem precisar olhar para as lápides, conhecia o caminho de cor, mesmo mal iluminado. Parecia andar sem rumo, mas mentalmente sabia quantos passos faltavam para reencontrar seu amor, ou o que um dia o fora.

Parado, finalmente, em frente ao atual lar de Larissa, lembrou-se do fatídico dia em que ela morreu, duas vezes. Descobriu, nesse dia, que sua esposa havia sido assassinada. Morta pelo amante. Não pôde odiá-la. Gostaria de odiá-la, de deixar tudo pra trás e aproveitar-se do seguro de vida, única lembrança boa deixada pela esposa, viajando pelo caribe. Talvez conhecendo algumas mexicanas em Cancun, mas não conseguia, sentia-se um adúltero, tal qual a falecida. Achava-se um idiota e dificilmente encontraria alguém que o contrariasse nesse pensamento. Caiu em prantos.

Nelson conseguiu, com dificuldade, erguer-se. Respirou fundo e viu-se cego de ira. Levantou seus braços aos céus e bradou com todas as forças contidas até o presente. Cuspiu, vomitou as palavras, desabafou para o céu estrelado, intocável, imaculado, lindo, onde jamais Larissa poderia estar. “DEUS! POR QUE TIRASTE TUDO DE MIM? NÃO BASTAVA O AMOR DE MINHA VIDA E TAMBÉM TIRA MINHA RAZÃO DE VIVER? MALDITO SEJAS!”. Desmoronou e desatou a chorar de novo.

Silêncio. Será que alguém o escutara. Seus nervos ficaram a mil junto com seus batimentos cardíacos. Quando conseguiu acalmar-se, conseguiu distinguir uns sons distantes, um barulho de sapatos chegando mais perto. “É o coveiro!”, sussurrou Nelson para si mesmo, e escondeu-se o mais rápido possível por trás do jazigo de sua mulher.

Um assobio desleixado e uma silhueta imponente aproximavam-se de seu esconderijo. Encolheu-se mais ainda. O homem parou em frente ao jazigo. Alto, esbelto, de terno e sapatos caríssimos. Do nada puxou uma cadeira e sentou-se de forma elegante. Sua atenção foi inconstavelmente seqüestrada por este estranho. Quem seria ele? E o que queria ali àquela hora?


Continua...


Eduardo Leite

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